Recentemente, ao escrever sobre as escolhas que estarão diante do próximo governo de Minas Gerais, procurei examinar uma questão que continua a me inquietar: governar é apenas responder ao presente ou também preparar aquilo que permanecerá depois? A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva leva-me a ampliar essa reflexão para o Brasil, diante de decisões econômicas, geopolíticas e institucionais cujos efeitos irão muito além de 2030.
Tenho a impressão de que discutimos os governantes com mais intensidade do que as condições em que governam. A cada eleição, renovam-se promessas e expectativas, enquanto velhos problemas reaparecem quase intactos. Não será essa repetição um indício de que temos exigido demais das mudanças de comando e de menos da capacidade de construir compromissos que sobrevivam a elas?
Em comentário recente na CNN Brasil, William Waack abordou as incertezas que caracterizam o cenário político e econômico dos próximos anos. A reflexão me parece pertinente, especialmente quando observamos que o mundo atravessa transformações profundas, cujos desdobramentos ainda não podem ser inteiramente antecipados. A meu ver, essa realidade acrescenta uma dimensão importante ao exercício do poder: independentemente de quem governe, as decisões nacionais estarão cada vez mais relacionadas a circunstâncias internacionais sobre as quais o Brasil nem sempre terá capacidade de influência.
Na economia, vejo um exemplo de nossa tendência a debater sintomas como se fossem problemas isolados. A redução dos juros é uma expectativa legítima de quem produz, investe ou depende de crédito; no entanto, pergunto-me por que ainda encontramos tanta dificuldade para criar condições que permitam mantê-los estruturalmente mais baixos. Sem enfrentar a qualidade do gasto público, a produtividade, a previsibilidade e a confiança, corremos o risco de celebrar alívios passageiros sem alterar as causas de nossa vulnerabilidade.
Há uma diferença decisiva entre administrar dificuldades e impedir que elas se reproduzam. O primeiro trabalho é visível e frequentemente urgente; o segundo exige persistência e pode não oferecer dividendos políticos imediatos. A questão, a meu ver, é saber quanto do futuro estamos dispostos a construir quando o presente reivindica praticamente toda a nossa atenção.
No cenário internacional, essa escolha se torna ainda mais complexa. Tarifas comerciais, disputas tecnológicas e tensões entre potências já interferem na vida de produtores, empresas e famílias brasileiras. Costumamos falar de autonomia como uma qualidade diplomática, mas considero que ela também depende da capacidade de produzir conhecimento, agregar valor e diversificar relações. Ter alimentos, energia e recursos naturais para oferecer ao mundo é uma vantagem; transformá-la em influência e prosperidade interna é uma tarefa que não se realiza por inércia.
No plano institucional, o próximo mandato também será marcado por decisões de grande alcance. Além da vaga atualmente aberta no Supremo Tribunal Federal, estão previstas três aposentadorias compulsórias até o final de 2030, o que poderá resultar em quatro indicações presidenciais à Corte. Trata-se de uma atribuição constitucional de especial relevância, pois a composição do Supremo participa da construção da jurisprudência e da evolução da interpretação constitucional brasileira. Vejo nessa circunstância um exemplo expressivo de como determinadas decisões de governo se incorporam à história das instituições e continuam produzindo efeitos muito além do período em que foram tomadas.
As responsabilidades institucionais também se manifestam nas relações com o Congresso, na atuação dos órgãos reguladores e na definição das prioridades nacionais. Cada mandato representa uma etapa na trajetória do Estado brasileiro, em que decisões presentes se somam às experiências anteriores e ajudam a estabelecer as condições para os períodos seguintes. Essa continuidade, que convive naturalmente com a renovação democrática, é parte essencial da construção institucional do país.
Talvez devêssemos examinar com maior cuidado o que chamamos de resultado. Obras, anúncios e medidas de efeito imediato têm seu lugar, mas a formação de pessoas, a solidez institucional e a continuidade de políticas que funcionam não podem depender apenas de sua visibilidade. A maturidade de uma administração também se revela naquilo que continua produzindo benefícios quando seus responsáveis já saíram de cena.
Não considero que faltem diagnósticos sobre os problemas brasileiros. Falta-nos, possivelmente, transformar conhecimento acumulado em escolhas consistentes, sem confundir continuidade com imobilismo nem mudança com obrigação de recomeçar. Também não acredito que essa responsabilidade caiba apenas ao presidente: ela se distribui entre instituições, agentes econômicos e uma sociedade que precisa aprender a cobrar não somente o que se entrega hoje, mas o que se torna possível amanhã.
A eleição presidencial abre um novo período para o Brasil, em um cenário de transformações econômicas, geopolíticas e institucionais que exigirão decisões de grande alcance. Muitas dessas escolhas produzirão efeitos que ultrapassarão o próximo mandato, influenciando oportunidades e condições de desenvolvimento por décadas. É sob essa perspectiva que considero importante refletirmos: que Brasil estamos construindo hoje para as gerações que viverão com as consequências de nossas decisões?





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