# Eustáquio Amaral

POPULAÇÃO DE PATROCÍNIO HÁ 200 ANOS, “FOGO” POR “FOGO”

26 de Julho de 2026 às 11:18

 

                                                                                                                

 

 

 

Maravilhosa. É a história de Patrocínio. Com registros reais, chega-se, com excelente identificação ao Distrito de Patrocínio, quando pertencia ao município de Araxá. Dez anos antes de Patrocínio se emancipar, em 1842. Portanto, há 194 anos. É um levantamento populacional, por casa, realizado pela Província de Minas Gerais, no período de 1832-1835. As casas ou “fogos” foram numeradas, de 1 a 232. Os moradores, escravos ou não, nominados, casa por casa. Nesse histórico censo (o termo censo era desconhecido), observa-se a residência da mais famosa família patrocinense, a Afonso. Onde a saga do Índio Afonso e de seus filhos começou. Uma saga que durou quase oitenta anos. Também é registrado, dentre os quase 2.000 moradores, a liderança patrocinense que “proclamou” a independência de Patrocínio em 1842. É fantástico. As fontes são o Arquivo Público Mineiro e a UFMG. Daí, não há dúvida sobre os fatos.

 

COMO ERA PATROCÍNIO EM 1832 – PTC integrava a Freguesia de São Domingos do Araxá, que estava se emancipando de Paracatu (até então Araxá e Patrocínio pertenciam a Paracatu). A sede da comarca era Paracatu, denominada Comarca do Rio Paracatu. Patrocínio era um dos 14 distritos de Araxá (Coromandel Ibiá, Carmo, Santana e Rio Paranaíba, todos com nomes primitivos, também eram distritos de Araxá). Casa era chamada “Fogo” (por causa da chaminé, do fogão a lenha). Os 232 fogos no distrito de Patrocínio, encontravam-se em volta da Igreja de Nossa Senhora do Patrocínio até o “Corgo Rangel”, na região hoje onde é o bairro Morada Nova e a Cadeia Velha (é heresia dizer que Patrocínio começou onde é a Praça Honorato Borges ou na região da Matinha).

 

FOGO” DO PRIMEIRO PREFEITO – A casa 195 pertencia a Francisco Martins Mundim. Segundo o Levantamento Populacional, Mundim era de cor branca, 31 anos, casado com Maria Custodia, branca, 16 anos (dois anos de casamento, pois ela casou-se com 14 anos) e o (primeiro) filho José. Todos livres. Havia mais três escravos africanos pretos (termo do Levantamento), um crioulo (Domingos, 18 anos), um pardo (Venâncio, 40 anos) e outros três jovens sem informações. Total de onze pessoas no “Fogo” 195 (três da família Mundim e oito serviçais). Mundim dedicava-se à lavoura. Quando da emancipação de Patrocínio ganhou do Império o título de capitão.

 

FOGO” DE UM LÍDER DA “INDEPENDÊNCIA” DE PTC – O “fogo” 203 pertencia à Damazo José da Silva, branco, 45 anos, casado, livre, e também, fazendeiro. Damazo foi um dos oito primeiros vereadores na história de Patrocínio. Na Câmara Municipal era sete vereadores e um vereador que assumia o cargo de agente executivo (prefeito). No caso, Francisco Martins Mundim. À época, Damazo José era o destaque. Pois, além da liderança política, exerceu o papel de juiz, delegado, vereador e intelectual. Tornou-se a maior força da emancipação de Patrocínio.

 

“FOGO” Nº 1 ERA DO PADRE – O primeiro vigário da primeira paróquia N. S. do Patrocínio (1839), José Ferreira Estrella, branco, 47 anos, residia com dois escravos africanos (João e Benedicto) na casa 1, no quarteirão 1. Nesse tempo (1832), a igreja patrocinense pertencia a Araxá.

 

“FOGO” SÓ DE MORENOS – Havia “fogos” sem a presença de moradores de cor branca. Por exemplo, a de nº 182 moravam a viúva Francisca Rosa de Oliveira, parda, 50 anos, e dois filhos pardos (Francisco e Claudina). E três jovens escravos africanos (Domingos, Antônio e Maria). O “fogo” 149 tinha onze moradores pardos. A cor parda é originada na mistura de raças, ou seja, mestiço.

 

FOGO” DO CÉLEBRE AFONSO – O “fogo” 207, quarteirão 0 (zero), moravam 17 pessoas. O primeiro com 26 anos, pardo, casado, dedicado à lavoura, era o Vicente Affonso. O segundo, com 28 anos, pardo, casado, dedicado também à lavoura, era Clemente Affonso. Mais, José Affonso (6 anos). Dependendo da interpretação histórica, um desses é o fenômeno Índio Afonso. Os demais moradores: Manoel Gregório (29 anos), Josefa (44 anos), Claudina (6 anos), Anna (14 anos), e, mais cinco mulheres jovens e uma idosa. Todos pardos. Trinta anos depois (por volta de 1862), Bernardo Guimarães descreveu o incrível valente Índio Afonso, época em que o conheceu. Assim, Índio Afonso não era índio (índio era apelido).

 

“FOGOS” Nº 8 E 46: NEGOCIANTES – No “fogo” nº 8, Silvestre João Júnior, branco, 32 anos, casado, negociante. Sua esposa (Maria), branca, 20 anos, e, a filha Maria Bellas, branca, dois anos. E os pretos (expressão do censo), João (24 anos), Joana (14 anos), Antonio (24 anos), Lourenço (24 anos), Adão (1 ano) e Francelina (12 anos). Todos cativos, sendo a última de cor parda. Já no “fogo” 46, residiam Bernardo Antônio, branco, 42 anos, casado, negociante; Cintia Maria, branca, 30 anos, os filhos Severino (7 anos) e João (2 anos) e Catharina, preta, cativa (escrava), 30 anos.

 

MAIS “FOGOS”: DOCEIRA, FIADORAS, AGRICULTORES E... – No “fogo” 69, a doceira Silvania Maria (92 anos) e os lavadores (deve ser de roupa) Vitoriana (70 anos) e Francisco (44 anos). No “fogo” 67, Catharina Maria (47 anos) e Theodora (30 anos), solteiras, fiadoras. No “fogo” 109, João Nunes (28 anos) e Anna (18 anos). No 192, José Maria dos Santos (42 anos) e Vitória (35 anos), seis filhos e Joaquim, pardo. A letra do escrivão de Paz, em 1835, nos documentos é bem traçada, mas por ser de uma época remota de difícil entendimento. Daí, pode haver alguma troca de nomes.

 

NÃO CHEGAVA A 2.000 PESSOAS A POPULAÇÃO PATROCINENSE – São 232 fogos (casas). E uma população de 1.752 pessoas. Assim, discriminadas na linguagem da época. Entre os brancos, tinham 174 machos casados e 125 fêmeas casadas, 362 machos solteiros e 349 fêmeas solteiras. Já os pardos dividiam entre livres e escravos. Por exemplo, havia 19 casados machos e 15 fêmeas casadas dentre os livres. Já entre os pretos livres, dois machos somente, 14 machos solteiros e 15 fêmeas solteiras. Entre os escravos (pretos), 127 casados e 443 solteiros em um total de 570 escravos. Na verdade, entre pardos e pretos, 647 escravos. Ou seja, parte significativa da população patrocinense (a terminologia desse Levantamento foi conservada nessa crônica).

 

CRIANÇAS CASADAS! – Até 15 anos, três fêmeas brancas casadas, cinco pardas livres casadas, um macho pardo escravo casado, e nenhum preto. Como se vê, acontecia casamentos de crianças menores de 15 anos naquela época.

 

POUCOS IDOSOS – Com mais de 60 anos, 12 machos brancos casados, uma fêmea branca casada e sete fêmeas brancas solteiras, nenhum pardo, e apenas quatro pretos, sendo 2 livres e 2 escravos. Portanto, a expectativa de vida era muito baixa. Vivia-se pouco, comparado com os dias de hoje.

 

POR FIM – Essa é uma face do Levantamento Populacional ou Censo da Província de Minas Gerais, na sua linguagem original, relativo ao Distrito de Patrocínio, pertencente ao município de São Domingos do Araxá. Época de 1832 a 1835.

 

 

([email protected] ***   Crônica, de 26/07/2026, também publicada na RedeHoje e redes sociais.