# Eustáquio Amaral

UM HOMEM PÚBLICO INCOMPARÁVEL; UMA FREIRA INACREDITÁVEL!

17 de Outubro de 2021 às 17:06

                                      

 

 

 

Reencontros. Era o nome dado às grandes festas dos patrocinenses em Belo Horizonte. Isso nos dez primeiros anos sucessivos do século XXI. Cada confraternização, no mínimo anual (às vezes, tinha até três eventos em um mesmo ano), movimentava de 200 a 1.000 pessoas. A promoção cabia à atuante Associação dos Patrocinenses Ausentes-APA. Uma década fantástica vivida pelos rangelianos na capital mineira. Desses Reencontros, já há diversas celebridades antológicas residindo na eternidade. Nessa edição, mais dois são lembrados. A de um ex-prefeito que deixou saudade e uma ex-freira que revolucionou o seu tempo. O ilibado Olímpio Garcia Brandão e a irmã Maria Flávia.

 

QUEM FOI DR. OLÍMPIO – Prefeito de Patrocínio de 1971 a 1975, nomeado pelo governador Rondon Pacheco. No governo Militar não havia eleição direta nem para prefeito nem para governador. Sua administração à frente da Prefeitura primou, foi sustentada, pela sagrada palavra planejamento, sobretudo o urbano. Sob sua liderança, uma equipe de urbanistas, arquitetos e humanistas elaborou o Plano Diretor e o Código de Obras. O Centro Administrativo, um dos primeiros do Brasil, foi concebido e iniciado na sua gestão. Como também as intituladas avenidas sanitárias (Av. Dom José André Coimbra e Av. João Alves do Nascimento) dentre diversas obras, sob a égide de planejadas.

 

RESPONSÁVEL POR INDÚSTRIA NOBRE ESPECIAL – Olímpio Brandão promoveu a instalação da Minasilk, única indústria de seda de Minas Gerais, cuja produção correspondeu a 10% da produção brasileira da seda. Produto totalmente exportado. Sem poluição. Significativa geradora de empregos. Mas... há quase três décadas, essa singular indústria (Minasilk e Sericitêxtil) é tão somente um belo e amarelado retrato na parede!  Imperdoável!

 

A EVOLUÇÃO NA EDUCAÇÃO – Na administração do Dr. Olímpio foi criada a Faculdade de Filosofia, englobando os primeiros cursos superiores da cidade, que se tornou o embrião do Unicerp. Também instalou o então Colégio Agrícola (hoje, Escola Agrotécnica Sérgio Pacheco). E o curso de Enfermagem da APAE.

 

A SEMENTE DO AGRONEGÓCIO – Como parceiro dos governos Federal e Estadual, lançou o Polocentro no Município. Esse revolucionário programa, composto de investimentos, é a razão maior da cafeicultura no Cerrado. O prefeito Olímpio Brandão ainda participou ativamente da implantação dos Silos e armazéns da Casemg, junto ao Governo de Minas.

 

A RODOVIA QUE VEIO PELAS SUAS MÃOS – A construção e pavimentação do trecho Patrocínio-Ibiá-BR 262 foi fruto de planejamento do Dr. Olímpio, quando ele se tornou gestor de Planejamento do DEER-MG, em BH, após deixar a Prefeitura. Com isso, a distância entre a região de Patrocínio e a capital reduziu em quase 100 km, definitivamente.

 

UM PREFEITO DE VISÃO – Criou o Serviço Municipal de Saúde, antevendo a chegada do SUS. Transferiu a rodoviária do centro para o eixo de avenidas (Rua Artur Botelho para a Av. Faria Pereira). Praticou e  ensinou o respeito total ao dinheiro público.

 

MODO DE SER INSUPERÁVEL – Católico fervoroso. Modesto. Austero. Sério. A cidade não tinha o seu deputado. Mas, isso não impediu a presença frequente de Patrocínio nos gabinetes do governo mineiro. Na maioria das vezes, o qualificado prefeito trazia benesses para o Município. Visando economia para os cofres municipais, viajava sempre solitário. Ia de carro da Prefeitura, pensaria alguém desavisado. Nada disso. Frequentou Belo Horizonte, viajando por estrada de poeira ou barro, duradouras, pelo Expresso União (não havia rodovia pavimentada na região nem a BR 262). Isso na maioria das vezes. E pela cidade sempre andava a pé no meio da comunidade (igreja, compras, etc.).

 

A VIDA DE OLÍMPIO – Um dos seis filhos de Marciano Brandão, nasceu em Iguatama (MG), em 11/3/1925. Vítima de câncer, faleceu em BH, onde residia, no centro da capital, em 05/4/2007, aos 82 anos. Aluno da Escola Horonato Borges, Ginásio Dom Lustosa (também foi diretor da Escola) e Engenharia de Ouro Preto. Em 1974, casou-se com Rita Faria Tavares (irmã de Expedito, Dario e José de Faria Tavares). Irmão do médico José Garcia Brandão, um dos ícones da medicina patrocinense nos anos dourados.

 

UMA FREIRA PRA FRENTE – Nos anos 50 e 60, o Dom Lustosa e a Escola Normal Nossa Senhora do Patrocínio, eram as mais brilhantes escolas do Alto Paranaíba. Havia internato (alunos de outras cidades residiam nas escolas). Nos dias que não havia aulas, as alunas da Escola Normal iam ao cinema ou em festas cívicas, desfilando pelas ruas centrais, em fila dupla e indiana, uniformizadas (camisa branca e saia plissada azul). Sempre comandada por uma freira. Por ter sido a mais amiga e a mais liberal, com as meninas-moças, Irmã Maria Flávia tornou-se a mais inesquecível.

 

À FRENTE DE SEU TEMPO – Maria Flávia foi a primeira e única freira a andar de bicicleta em Patrocínio até a década de 70 (bicicleta era considerado veículo masculino).

 

À FRENTE, MESMO! – Maria Flávia também revolucionou o comportamento feminino daquela geração. Por exemplo, nos anos 60, as irmãs adquiriram dos padres holandeses uma bela chácara, na região do bairro Santo Antônio, com piscina de água corrente (a outra piscina era somente no PTC). E lá aconteceu, sob a sua direção, uma inovação sem precedentes. Deu o que falar. As meninas-moças começaram a usar maiô. Espetáculo nunca visto na urbe.

 

QUEM FOI – Maria Flávia, em 1947, tornou-se freira da Congregação do Sagrado Coração de Maria. Professora de Matemática e Educação Física, residiu no Colégio, por nove anos. Por volta de 1970, deixou a Congregação e passou a residir em Montes Claros, para cuidar de sua mãe. E o seu nome civil, Ulícia Martins, a acompanhou até o seu falecimento nesse começo do século XXI, já quando residia em BH. Faleceu solteira.

 

REENCONTROS – Nessas festas típicas da APA, foi possível os patrocinenses reviverem os tempos áureos de Olímpio Brandão e Ulícia Martins (Maria Flávia), sempre presentes. Tal como na festa ocorrida no dia 06 de outubro de 2001, no luxuoso Minas Tênis Clube II. Show com cantores patrocinenses, homenagens à gente de Patrocínio de destaque, e, baile da meia-noite até as três horas da madrugada, com a Banda Via Láctea. Mais uma noite histórica para os patrocinenses que vivem além de Patrocínio. Indelével!

 

([email protected]) *** Primeira Coluna também publicada na Gazeta de Patrocínio, edição de 09/10/2021.

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