15 de Junho de 2026 às 11:15

Cerrado Mineiro coloca o café regenerativo no centro do debate global

3ª Jornada: O Mercado, o Carbono e o Café Regenerativo reuniu lideranças nacionais e internacionais em Monte Carmelo (MG) para debater ciência, mercado e a nova geopolítica do café

Com auditório lotado e a diretora-executiva da Organização Internacional do Café (OIC), Vanusia Nogueira, entre os debatedores, a 3ª Jornada: O Mercado, o Carbono e o Café Regenerativo transformou, na última quarta-feira (10/6) Monte Carmelo (MG) em palco das discussões mais relevantes do café global.

Realizado no Vivendas Festas e Eventos, o evento reuniu produtores rurais, pesquisadores, lideranças cooperativistas, representantes de mercado e especialistas internacionais em torno de uma certeza cada vez mais difícil de ignorar: o café regenerativo não é mais aposta de futuro, é exigência presente do mercado global, com prazos, regulações e oportunidades que chegam ainda em 2026.

DA TEORIA À EVIDÊNCIA: O QUE É, AFINAL, CAFEICULTURA REGENERATIVA?

O Painel I, mediado por Rodolfo Osório de Oliveira, da Embrapa Café, reuniu Yuri Nogueira Feres, da Rainforest Alliance Regenerative, e João Raiser, do CBH Paranaíba, e Maria Cecilia Ferronato, Sócia da ECCON Soluções Ambientais, para uma pergunta deliberadamente incômoda: o que separa uma fazenda genuinamente regenerativa de uma que apenas usa o termo?

O debate revelou o nó central do setor: não existe ainda uma definição universal de cafeicultura regenerativa, e essa ausência cria espaço tanto para inovação genuína quanto para greenwashing. Os especialistas apresentaram os dois modelos de certificação em disputa: o baseado em práticas (que verifica o que o produtor faz) e o baseado em resultados (que mede o que o solo e o carbono efetivamente registram). A diferença não é apenas técnica, é estratégica e comercial. Compradores europeus e americanos de alto valor já exigem o segundo modelo, com indicadores mensuráveis como a Respiração Basal do Solo e a Biomassa Microbiana como critérios objetivos de evolução.

O consenso prático alcançado foi claro: cafeicultura regenerativa é aquela que recupera o que a produção convencional degradou, a saúde do solo, a biodiversidade, a retenção hídrica, a captura de carbono, sem abrir mão da produtividade nem da qualidade. Para ter credibilidade de mercado, porém, precisa de evidência mensurável. Quem não puder provar, não poderá precificar.

"O café regenerativo não é mais uma discussão do futuro distante. Ele já é uma realidade que redefine produtividade, qualidade e acesso a mercados. Nosso papel é preparar o produtor para esse novo ciclo, conectando ciência, mercado, práticas regenerativas e competitividade." — Francisco Sérgio de Assis, Diretor Presidente da monteCCer

MERCADO DE CARBONO, FINANÇAS VERDES E O CAFÉ COMO ATIVO AMBIENTAL

O Painel II, mediado por Pedro Loyola, da FGV, com Elson Rocha Justino, Diretor Executivo do Sicoob Central Crediminas, e Cassandra Marcon Giacomazzi, fundadora da Nexo Estratégia & Sustentabilidade, e Natália Braulio dos Santos, que atua na área de Cidadania e Sustentabilidade do Sicoob, colocou no centro do debate uma questão que interessa diretamente ao bolso do produtor: como transformar práticas regenerativas em resultado financeiro concreto?

A sessão mapeou os instrumentos das finanças verdes, crédito diferenciado para quem adota menor impacto ambiental, seguros rurais voltados à produção regenerativa, e chegou ao ponto de maior interesse estratégico: o mercado de carbono. Com a promulgação da Lei 15.042/2024, que estrutura o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), o Brasil caminha para um mercado regulado de carbono em pleno funcionamento até 2030. Mas o mercado voluntário já opera.

E aqui o café regenerativo tem uma vantagem estrutural: ao ser carbono-negativo, capturando mais CO? do que emite, ele se qualifica para os créditos de remoção, a categoria mais valorizada do mercado global, com preços que podem superar em três a cinco vezes os créditos de evitação convencionais. O produtor que comprovar esse resultado com metodologia robusta passa a precificar seu café em dois mercados simultaneamente: o de grãos e o de carbono.

O cenário de insumos reforça o potencial da transição: o mercado brasileiro de soluções biológicas movimentou aproximadamente R$ 5 bilhões na safra 2023/2024, com crescimento médio anual de 21% nos últimos três anos, quatro vezes acima da média global, com projeção de R$ 9 bilhões até 2030.

GESTÃO DO AMANHÃ: INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NA PORTEIRA

A palestra central da tarde, ministrada por Sandro Magaldi sob o título "Gestão do Amanhã: Como a IA pode te ajudar?", apresentou de forma acessível como ferramentas de inteligência artificial já chegam à gestão das propriedades rurais, da análise de solo ao monitoramento de safras e à precificação de lotes especiais. A mensagem foi direta: a IA não substitui o olhar do produtor, mas reduz perdas e potencializa decisões. O programa Educampo Sebrae, apoiador do evento, tem levado essa agenda de gestão e tecnologia às propriedades da região.

MARCA, VALOR E O FUTURO DA FAZENDA DE CAFÉ

O Painel III, mediado por Camila Souza Ramos, do Valor Econômico, com Mônica Rayol e Ricardo Nicodemos, presidente da Associação Brasileira de Marketing Rural e Agro (ABMRA), provocou o auditório com uma pergunta direta: "Fazenda de Café: Sem Marca, Sem Valor. Tem Futuro?"

O debate tornou evidente que o produtor que investe na construção de identidade de origem tem acesso a nichos de mercado mais rentáveis e estáveis. Rastreabilidade certificada e transparência ao longo de toda a cadeia produtiva deixaram de ser diferenciais opcionais, passaram a ser requisitos de entrada nos mercados de maior valor. Consumidores globais pagam pelo que podem verificar.

A discussão apontou também para o papel das cooperativas como amplificadoras de marca: um produtor individual dificilmente chega ao consumidor final com identidade reconhecida. Uma cooperativa com posicionamento claro e histórico de qualidade, como a monteCCer no Cerrado Mineiro, tem condições de construir narrativa de origem com escala. O desafio é transformar reputação regional em valor capturado ao longo da cadeia.

O MUNDO QUE ESTÁ CHEGANDO: EUDR, CHINA E A JANELA DO BRASIL

O encerramento foi também o pico de densidade estratégica da jornada. O Painel IV "Panorama Mundial da Produção do Café: Onde estamos e para onde vamos?", mediado pelo Diretor presidente da monteCCer, Francisco Sérgio de Assis, teve participação de Marcelo Moreira, Consultor independente e colaborador da Archer Consulting, e como presença central Vanusia Nogueira, diretora-executiva da Organização Internacional do Café (OIC), organismo que representa mais de 98% da produção e do consumo mundial de café.

Ter a OIC em Monte Carmelo não foi protocolo, foi sinal de posicionamento: o Cerrado Mineiro está no radar das decisões mais relevantes do setor global.

"O mundo vive um cenário geopolítico complexo onde mercados, sustentabilidade e segurança alimentar estão profundamente conectados. O Brasil desponta com uma vantagem competitiva inegável devido à sua alta mecanização, forte ecossistema de pesquisa e maturidade do sistema cooperativista. A cafeicultura regenerativa e a capacidade de gerar créditos de carbono nos posicionam na liderança global. No entanto, precisamos comprovar nossos resultados com dados e evidências claras para acessar os mercados premium, que hoje compram de quem prova, e não apenas de quem promete." — Vanusia Nogueira, Diretora-Executiva da OIC

O debate situou o Brasil no contexto de um mercado global em rápida transformação regulatória. O Regulamento de Desmatamento da União Europeia (EUDR), com prazo para grandes operadores em dezembro de 2026, foi citado como referência do novo padrão de exigência: rastreabilidade de origem, evidência ambiental e documentação auditável. A direção é clara: o mercado premium global compra de quem prova, não de quem promete.

A leitura do painel foi unânime: o Brasil tem uma janela de oportunidade singular. Com capacidade produtiva, histórico de qualidade e crescente base científica em agricultura regenerativa, o país não precisa apenas se adaptar às novas exigências globais, pode exportar os parâmetros, os protocolos e a inteligência que as definem. O Cerrado Mineiro, nesse contexto, não é coadjuvante: é protagonista com nome e endereço.

"Os impactos da crise climática estão cada vez mais presentes e é preciso unir esforços para fortalecer as soluções existentes em torno de uma cafeicultura mais resiliente. Por isso, as discussões do evento foram construídas para preparar os produtores para o futuro." — Alessandro Rodrigues, Imaflora

HOMENAGEM AOS 45 ANOS DO CNC

Um dos momentos mais marcantes da programação foi a homenagem prestada ao Conselho Nacional do Café (CNC) pelos seus 45 anos de atuação em defesa da cafeicultura brasileira.

A homenagem reconheceu a trajetória da instituição na representação dos cafeicultores, na construção de políticas públicas para o setor e na defesa dos interesses da produção nacional ao longo de mais de quatro décadas.

"Receber esta homenagem em um ambiente que respira o futuro da cafeicultura nos enche de orgulho. O CNC tem trabalhado incansavelmente na construção de políticas públicas estruturantes, na defesa da correta aplicação do Funcafé e no apoio a ações fundamentais como o programa 'Café Produtor de Água'. Eventos de excelência como esta Jornada provam que o Cerrado Mineiro e o cooperativismo brasileiro possuem a união, a resiliência e a robustez científica necessárias para responder de forma afirmativa a qualquer exigência do mercado global." — Silas Brasileiro, Presidente Executivo do CNC

ALÉM DO DEBATE: REGENERAR TAMBÉM É CUIDAR DE GENTE

Em um dos momentos mais simbólicos do dia, foram entregues convites solidários (R$ 24 mil) e sobras do programa Sócio Ambiental Viveiro de Atitude (R$ 84 mil) a entidades de Monte Carmelo que cuidam de crianças e idosos, gestos que traduziram em ação concreta o espírito que o evento pregou ao longo de toda a programação. O Viveiro de Atitude, programa socioambiental da monteCCer que produz mudas de árvores nativas do Cerrado e repassa a renda a instituições sociais do município, está presente em mais de 21 municípios e alinhado a 11 dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Cuidar da terra e cuidar das pessoas são, para a cooperativa, faces de um mesmo compromisso.

QUEM FEZ ACONTECER

A 3ª Jornada foi promovida pela Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado de Monte Carmelo (monteCCer), pelo Sebrae Minas, pelo Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) e pelo Conselho Nacional do Café (CNC), com apoio do programa Educampo.

O CERRADO MINEIRO NA VANGUARDA

Ao fim do dia, com os participantes confraternizando e trocando contatos em um encerramento que reforçou o networking entre os diferentes elos da cadeia, ficou claro que Monte Carmelo não é apenas palco: é protagonista. O Cerrado Mineiro, reconhecido internacionalmente pela qualidade e consistência de sua produção, aposta na cafeicultura regenerativa como o caminho para manter e ampliar sua relevância em um mercado global cada vez mais exigente com sustentabilidade, rastreabilidade e responsabilidade ambiental.

A 3ª Jornada encerrou com a certeza de que o debate não termina aqui. Ele começa, de fato, na próxima manhã: dentro de cada fazenda.


Comentários

Termos de uso:

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Patrocínio Online. É vedada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O Patrocínio Online poderá remover, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios impostos ou que estejam fora do tema da matéria comentada. É livre a manifestação do pensamento, mas deve ter responsabilidade!